quinta-feira, 9 de setembro de 2010

As Pinturas Negras de Goya













Já se passava das 2 da madrugada e não conseguia dormir. Isso foi no dia em que vi pela primeira vez as Pinturas Negras de Goya, no Museu Nacional Del Prado. Detalhes e cenas que tinha visto naquelas telas vinham a minha mente a cada momento; mais notadamente a tela de Saturno comendo a cabeça de seu filho. Essa mesma pintura fora retratada pelo mestre Rubens onde Saturno, com um bebê em suas mãos enormes, mordisca a sua pele na altura do peito em direção ao coração; os dentes cravados na pele e o rosto de dor da criança seria mais estarrecedor se eu não tivesse visto minutos antes o Saturno de Goya. Calejado pelos descontentamentos da vida e dos homens, Goya pinta Saturno devorando diretamente a cabeça de um homem. Já não é mais uma criança como em Rubens, mas uma figura adulta e já não come-lhe o coração mas a cabeça. Tantos anos depois Goya opta por expressar a figura do pai criador (Saturno), num ato canibal devorando a razão. Anos atrás talvez Rubens tenha sido mais barroco em canibalizar a emoção pelo coração. Goya, sabendo que não é no coração onde reside os maléficos da humanidade, mas na razão, faz sua releitura de Rubens. Um mestre da pintura visita outro mestre. Se é o cérebro que domina tudo, inclusive o coração, porque não começar devorando a cabeça? E inclusive de uma figura já adulta, já formada, cheia de vícios, invejas e outras maldades. Aqui, nessa representação de Goya, o ódio do pai criador é maior, mais assustar, mais preciso, mais necessário... Apesar de que na figura de Rubens muitas coisas poderiam se passar pela cabeça de Saturno: proteger a criança dos males da vida ou proteger o seu próprio reinado enquanto pai?Talvez possamos dizer que Goya quisesse eliminar a razão em vez da emoção. A razão, fruto de todo o sofrimento e frieza do ser humano, desmerece de continuidade. Gritantemente como hoje, vê-se na representação de Goya a necessidade urgente de reinventar o homem. De lá para cá o que fez o ser humano que desmerecesse tal ato de canibalismo? Holocausto, Hiroshima, Nagasaky, 1915, 1945, 11/09, etc....Comão-lhe a razão. Goya num surto de emoção a 400 anos atrás nos antecipa o que hoje conhecemos como modernismo.





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